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Vênus de Dolní Věstonic: A cerâmica mais antiga do mundo

A cerâmica mais antiga do mundo é datada entre 29.000 e 25.000 A.C e se chama estatueta Vênus de Dolní Věstonic. Além de ser uma icônica figura pré-histórica, ainda nos ensina que é possível fazer nossa cerâmica artesanal durar mais, quando cuidada com carinho.

A Vênus foi feita de terracota e encontrada em uma área arqueológica na Morávia, no sul da República Tcheca. Neste artigo eu vou te contar a história da cerâmica registrada mais antiga do mundo e a história por trás dessa arte.

A História da cerâmica mais antiga do mundo

A Vênus de Dolní Věstonic marca a história da humanidade e representa uma das primeiras manifestações artísticas e espirituais do homem pré-histórico.

Arqueólogos descobriram a figura em 1925, durante escavações na área de Dolní Věstonice, uma antiga localidade situada na Morávia, no sul da atual República Tcheca. Essa peça ocupa o posto de cerâmica mais antiga do mundo, com datação realizada por carbono-14 entre 29.000 e 25.000 A.C.

Esse sítio arqueológico, rico em relíquias da Era do Gelo, revelou vestígios de uma sociedade caçadora e coletora do Paleolítico Superior e forneceu informações valiosas sobre o comportamento e a cultura dos primeiros Homo sapiens europeus.

Os pesquisadores encontraram a estatueta de Vênus em meio a ferramentas de pedra e restos de mamutes, o que indica que esses povos desenvolveram rituais e práticas simbólicas que iam além da simples sobrevivência.

Ao esculpir uma figura feminina com formas exageradas e detalhes estilizados, o artista pré-histórico direcionou intencionalmente a atenção para a fertilidade e a feminilidade. Ainda assim, nem todos os estudiosos concordam com essa interpretação. Muitos também questionam a nomenclatura da peça “Vênus”, que associa a estatueta à deusa da mitologia romana.

Alguns dirão: “Mas Vênus era uma deusa – o que há de errado nisso?” Poucas pessoas sabem que o nome em si se origina da descrição sarcástica do marquês de Vibraye de uma pequena estatueta paleolítica encontrada em 1864 em sua propriedade Laugerie-Basse em Dordogne. A aristocrata com educação clássica a chamou de “Vénus impudique”, vendo-a como “indecente” em contraste com o arquétipo romano de Vênus Pudica.

~ Angela Natel. Escritora, professora, linguista e teóloga,

A estatueta apresenta seios volumosos, ancas largas e uma cabeça desproporcionalmente pequena. Essas características levaram diversos pesquisadores a interpretá-la como símbolo de fertilidade, maternidade e, possivelmente, de um culto à deusa mãe.

Com essa criação pioneira, o homem pré-histórico demonstrou domínio técnico sobre a argila e o fogo, dois elementos que, milênios depois, se tornaram centrais para o desenvolvimento da cerâmica como conhecemos hoje.

Vênus de Dolní Věstonic e Vênus de Willendorf: Qual a diferença?

Outra figura feminina igualmente famosa e semelhante surgiu com a descoberta da Vênus de Willendorf, na Áustria, em 1908. A datação situa a peça por volta de 25.000 A.C. Sua forma exagerada e voluptuosa destaca ainda mais os atributos femininos, como os seios e as ancas.

Vênus de Dolní Věstonic A cerâmica mais antiga do mundo
Estatuetas Vênus de Dolní Věstonic e Vênus de Willendorf

As estatuetas Vênus de Dolní Věstonic e Vênus de Willendorf nasceram em períodos próximos e compartilham características simbólicas e estéticas que revelam valores e crenças das sociedades paleolíticas.

Apesar das semelhanças em estilo e possível função ritual, a principal diferença entre elas está no material.

Artesãos esculpiram a Vênus de Willendorf em calcário, enquanto modelaram a Vênus de Dolní Věstonic em terracota, ou seja, argila submetida à queima. Essa escolha demonstra um domínio técnico mais avançado no uso da argila e do controle do fogo por parte dos criadores da Vênus de Dolní Věstonic. Além disso, a Vênus de Willendorf mede cerca de 11 cm de altura, enquanto a Vênus de Dolní Věstonic possui aproximadamente 15 cm.

Outro ponto de conexão entre essas figuras aparece no uso simbólico dos exageros corporais. Seus criadores omitiram detalhes faciais e pés e concentraram a representação nos seios e quadris. Essa decisão estética reforça a hipótese de que essas estatuetas cumpriam funções rituais, possivelmente ligadas a cultos de fertilidade ou à proteção.

O significado cultural das vênus e o papel da cerâmica

As sociedades pré-históricas associaram com frequência a criação de figuras femininas ao culto à fertilidade e à importância da mulher na organização social paleolítica. Tanto a Vênus de Dolní Věstonic quanto a Vênus de Willendorf apontam para uma valorização da maternidade, da fecundidade e do ciclo da vida.

Em grupos que dependiam da caça e da coleta para sobreviver, a continuidade da comunidade assumia papel central. Esses povos podem ter utilizado as estatuetas em rituais de fertilidade, como símbolos de proteção para mulheres grávidas ou como oferendas para buscar abundância de alimentos.

Ao optar pela cerâmica em vez de pedra ou marfim, os criadores da Vênus de Dolní Věstonic deram um passo importante no desenvolvimento humano.

O uso da terracota exigiu conhecimento técnico sobre a modelagem da argila e o controle do fogo, o que representou um avanço cultural significativo para o período. Essa inovação abriu caminho para o desenvolvimento da cerâmica tanto como expressão artística quanto como recurso utilitário, prática que se expandiu ao longo dos milênios e permanece presente até hoje.

A descoberta da Vênus de Dolní Věstonic amplia nossa compreensão sobre as primeiras tentativas humanas de retratar a figura feminina como símbolo de fertilidade e proteção.

Quando a comparamos com outras estatuetas do mesmo período, como a Vênus de Willendorf, percebemos que a Vênus de Dolní Věstonic se destaca por introduzir a cerâmica como material nesse contexto artístico, abrindo caminho para uma tradição que atravessou os séculos.

Esse artefato milenar ocupa um dos lugares mais relevantes na história da cerâmica, tanto por sua antiguidade quanto por seu simbolismo cultural. Ao analisá-lo, compreendemos melhor a evolução técnica da cerâmica e os valores sociais e espirituais que moldaram nossos ancestrais.

Os povos tchecos que provavelmente criaram a Vênus de Dolní Věstonic

Os grupos humanos que habitaram Dolní Věstonice integravam a cultura gravetiana, desenvolvida na Europa Central entre 30.000 e 22.000 A.C. Portanto, viveram em pleno período glacial. Nesse contexto climático rigoroso, organizaram estratégias eficientes de sobrevivência.

Além disso, esses povos dependiam da caça de grandes mamíferos, como mamutes e renas, e complementavam a alimentação com coleta sazonal. Assim, estruturavam acampamentos relativamente estáveis. Evidências arqueológicas mostram que construíam abrigos com ossos e presas de mamute.

Por outro lado, o sítio revelou sepultamentos ritualizados e objetos simbólicos. Dessa forma, os pesquisadores identificaram práticas espirituais e organização social complexa. Portanto, a criação da Vênus insere-se em um ambiente cultural estruturado.

A construção da peça

Os artesãos gravetianos modelaram a Vênus com argila local misturada a fragmentos orgânicos, possivelmente ossos moídos. Essa técnica aumentava a resistência do material durante a queima. Assim, preparavam a peça para suportar variações térmicas.

Em seguida, submeteram a figura ao calor controlado do fogo, provavelmente em fogueiras estruturadas. No entanto, o processo envolvia riscos. Fragmentos encontrados no sítio indicam que várias peças quebraram durante a queima.

Consequentemente, esse cenário revela experimentação técnica e domínio progressivo do material. Portanto, esses povos não manipularam a argila de forma casual. Ao contrário, desenvolveram conhecimento prático sobre modelagem e controle térmico.

O simbolismo cultural da cerâmica mais antiga do mundo para o povo

As formas exageradas da estatueta enfatizam seios e quadris, elementos associados à fertilidade. Dessa maneira, os criadores destacaram atributos ligados à reprodução e à continuidade do grupo. Assim, a peça assumiu forte valor simbólico.

Além disso, o contexto arqueológico inclui objetos rituais e sepultamentos organizados. Por isso, muitos pesquisadores defendem que a comunidade utilizava a estatueta em práticas espirituais. Nesse sentido, ela pode ter representado proteção ou prosperidade.

Por fim, ao produzir essa figura, esses povos registraram sua visão sobre o corpo e a vida coletiva. Portanto, a Vênus ultrapassa a dimensão estética. Ela expressa identidade cultural, crenças e organização social.

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